1. Se tivesse que escolher os aspetos mais importantes a ter em consideração na segurança aérea, quais seriam?
Seria, simplesmente, a capacitação de profissionais de aviação, e a operação das aeronaves e todas as vertentes de apoio, tais como o controle do tráfego aéreo e serviços aeroportuários, para assim conseguir cumprir os respetivos deveres e responsabilidades a nível individual e organizacional, em consonância com os padrões e práticas internacionais e da indústria.
2. No que diz respeito à segurança aérea, quais são os maiores desafios?
Considerando que os meios de transporte em geral estão tornando-se cada vez mais dependentes da tecnologia autónoma, o fator humano na operação das aeronaves é certamente um desafio.
Como aprendi bem cedo na minha carreira, as novas tecnologias também trazem novos problemas.
3. Na sua opinião, qual é o papel da tecnologia e inovação na segurança aérea?
Desde as origens da aviação, o desenvolvimento tecnológico tem contribuído significativamente para o progresso da segurança aérea. As novas tecnologias continuarão a otimizar a segurança nos meios de transporte em geral.
No início da minha carreira, por exemplo, ocorriam anualmente vários acidentes e incidentes nos quais pilotos da aviação civil se desviavam da sua rota ou se perdiam durante o voo. No entanto, tais acontecimentos são agora raríssimos, graças à chegada de novas tecnologias de navegação como, por exemplo, o GPS.
4. Concorda que o maior ativo na prevenção são as próprias pessoas?
Sem dúvida nenhuma, o ativo mais valioso são as pessoas. Tal como habitualmente se diz no setor da segurança aérea, uma boa interação entre o liveware (o fator humano), o software e o hardware reverte-se em resultados positivos para o setor.
Por consequência, o fator humano é, sem dúvida, um elemento chave nessa sinergia.
5. Seria correto pressupor que a maioria dos acidentes são causados pelo fator humano?
Sim. Há várias décadas que a grande maioria dos acidentes e incidentes, cerca de 70%, tem origem em erros humanos. Porém, os erros humanos devem ser analisados no contexto organizacional e a nível do sistema no seu todo, e não a nível individual, como geralmente acontece. O objetivo de qualquer investigação de acidentes é de estabelecer os fatos, não os culpados, bem como identificar a sequência de eventos que estiveram na origem de determinadas ocorrências.
6. Em caso de um acidente aéreo, qual é o papel de um investigador?
O objetivo da investigação e, por consequência, o dever de um investigador de acidentes aéreos é determinar fatos, condições e circunstâncias relacionadas a um determinado acidente, bem como a implementação de medidas corretivas que visam a prevenção de ocorrências similares.
7. Em janeiro de 2017, tornou-se no primeiro Afro-Americano a exercer o cargo de Diretor Geral da NTSB. Como foi a sua experiência na liderança dessa organização?
Foi sem dúvida uma honra e um privilégio servir uma instituição do governo federal com tal prestígio, tanto a nível nacional e internacional, que é também vista de forma positiva pelos passageiros e pelo público em geral. Relativamente ao fato de ser o primeiro Afro-Americano a exercer tal função, estou ciente e valorizo o seu significado histórico. Contudo, durante o meu longo percurso na instituição, habituei-me a essa distinção e ao fato de ser pioneiro, e por essa razão, assumi plenamente o papel de modelo em cada fase da minha carreira.
8. Em 1980, enfrentou o seu maior caso, nomeadamente, o Voo 255 da Northwest Airlines em Detroit. Como foi o processo de investigação desse acidente?
Apesar de o caso NW255 ter sido o primeiro caso de um acidente catástrofico no qual participei, não o consideraria o meu maior caso. Ao longo dos anos, representei o NTSB e o governo dos Estados Unidos da América, tanto em África como noutros continentes, em dezenas de casos de grande porte que envolveram múltiplas fatalidades, incluindo a de figuras públicas. Algumas das investigações mais marcantes, que contaram com equipas dos EUA, foram as que envolveram três grandes acidentes aéreos que ocorreram no período de um ano (2005-2006), na Nigéria. A equipa dos EUA liderou uma equipa internacional de investigação que estava a investigar o acidente aéreo que resultou na morte do Vice- Presidente do Sudão, em julho de 2005 (sendo que o resultado da investigação evitou uma guerra civil). Salientaria também o último caso que liderei antes de me tornar Diretor-Geral, à cabeça da equipa dos EUA na investigação do bem conhecido voo 370 da Malaysia Airlines que desapareceu.
Quanto à questão sobre o voo NW225, foi uma investigação padrão que seguiu rigorosamente os protocolos internacionais e os dos EUA. Foi a primeira oportunidade que tive de trabalhar em conjunto com uma equipa grande e também a primeira vez que vivenciei o trauma criado pela queda de um voo comercial. Foi sem dúvida um passo importante e um processo de aprendizagem que me preparou para os anos seguintes.
9. Durante os seus 40 anos de carreira, participou na investigação de mais de 1500 acidentes aéreos. Que avaliação faz da sua carreira?
Foi o meu interesse em pilotar aviões que me atraiu à aviação. Comecei a pilotar aviões ainda bastante jovem, e tentava sempre pôr em prática esse interesse de forma a evitar qualquer tipo de ocorrência que levasse a acidentes aéreos. Por ironia do destino, acabei por me envolver profundamente nessa área, tornando-me especialista na investigação de acidentes aéreos, tanto a nível nacional e mundial, e até tornar-me executivo sénior de uma instituição governamental responsável pela investigação de acidentes aéreos. Foi uma experiência incrível que chegou muito mais além do que teria esperado no início da minha carreira.
10. Qual a sua avaliação destes dias de formação na Cidade da Praia?
Tem sido, pura e simplesmente, uma alegria. Fiquei muito impressionado pelo entusiasmo, inteligência, conhecimento e habilidade demonstrada pelos participantes. Acredito que as comunidades de aviação locais e regionais estão firmemente empenhadas em garantir a segurança aérea e que utilizam a investigação de acidentes/incidentes como ferramentas imprescindíveis na prevenção de acidentes e incidentes.
11. O que acha do setor aeronáutico em Cabo Verde?
A primeira visita que fiz a Cabo Verde foi em setembro de 2013, mas fiquei no país menos do que 48 horas.
Contudo, graças a esta estadia de quase duas semanas, tive a oportunidade de conhecer a Ilha de Santiago. Durante esta visita comentei frequentemente com os meus colegas que o país mostra um enorme potencial aeronáutico em vários setores da economia, incluindo na área comercial, do turismo e dos transportes. Operações de serviços de emergência médica (evacuação médica), hidroaviões e operações de helicópteros são apenas algumas das várias áreas de aviação que beneficiariam o país.