O fator humano é muitas vezes determinante no que toca à investigação e prevenção de acidentes. O ser humano não é infalível e, por vezes, pequenos erros podem levar a consequências maiores. Portanto, apesar de não se puder afirmar com toda a certeza que todos os acidentes são causados pelo fator humano, o fator humano é muitas vezes determinante na causa do acidente ou incidente.
Remontando aos primeiros anos da aviação, ou mesmo da navegação marítima, os acidentes eram atribuídos a problemas de projeto, fabrico e, em casos específicos, até condições meteorológicas. Atualmente, com o aumento da tecnologia e inovação, estas ferramentas permitem que o erro já não seja somente de cariz técnico. Os fatores humanos e operacionais ocupam, agora, o papel de protagonistas nos acidentes.
Olha-se para o elemento humano como a parte mais flexível e valiosa, sendo também a mais frágil, podendo o seu desempenho alterar completamente o resultado. É importante ter em conta elementos como lapsos de memória (como por exemplo esquecer um passo num processo ou medida de segurança); poder de raciocínio reduzido; falta de atenção ou distração. Bem como falta de sensibilidade dos órgãos sensoriais; falta de competência, experiência ou nível de habilidade para a tarefa requerida; personalidade ou atitude; negligência, arrogância ou excesso de confiança, e fraca perceção de risco devido à falta de conhecimento ou experiência.
Porém, além de todas estas possibilidades mencionadas anteriormente, há que acrescentar mais um fator no que toca ao papel do elemento humano nos acidentes e incidentes: a saúde mental. Após um ano conturbado por causa da pandemia do COVID-19, e todas as crises que com ela se manifestaram (humanitária, sanitária, económica, social), é importante olhar para a saúde mental dos profissionais no setor aéreo, marítimo e, no geral, em qualquer área. Problemas como depressão ou ansiedade, manifestaram-se em muitos profissionais que viram as suas vidas afetadas pela pandemia, direta ou indiretamente.
No caso da indústria aeronáutica, que enfrentou um dos seus maiores desafios com o fecho de fronteiras, redução de voos e, por consequência, redução de postos de trabalho, a doença mental tem registado um crescimento considerável entre os operacionais. Na aviação, o bem-estar mental está ligado diretamente à segurança. Por isso, na primeira metade de 2020 a Equipa de Segurança da Aviação Comercial Americana (CAST) publicou uma listagem de alertas, acreditando que o facto de não haver voos, tanto para pilotos como para companhias aéreas, poderia levar a um aumento sem precedência de acidentes – algo que não veio a acontecer.
Por isso, é importante que os setores e indústrias promovam mais do que o estar “apto para trabalhar”, apostando no bem-estar do trabalhador, mais do que uma questão de segurança ou risco. O foco deverá ser encontrar o problema e os fatores que podem negativamente impactar uma performance segura.
Além do apoio providenciado para o bem-estar mental dos profissionais, o risco de acidentes ou incidentes com causa humana pode ser prevenido, ou reduzido, através da implementação de medidas como formação, monitorização e controlo, feedback e auditorias frequentes.
Para o IPIAAM, a análise do fator humano em acidentes e incidentes, quando se justifica, é parte integral na investigação. Por isso, esta análise deve ser metódica e completa estudando ao pormenor o meio, os seus sistemas e as falhas que levaram ao seu acidente. Em caso de identificação de erro humano, cabe ao IPIAAM enumerar medidas e propostas para melhorar o desempenho do fator humano de forma a prevenir a repetição do(s) mesmo(s) erro(s). Estas propostas podem ir desde a implementação de novas medidas de segurança, mais formação, necessidade de testes de foro mental ou análises mais profundas de todos os profissionais envolvidos.
Analisar e estudar o elemento humano em acidentes requer um olhar clínico, que vai muito mais além da identificação do erro. Há que perguntar o porquê de a pessoa ter feito este erro? Foi cansaço? Uma distração? Ou estaria preocupada com outro fator alheio à sua tarefa? Todas estas perguntas devem ser respondidas e a sua reação não deve ter como muleta o preconceito ou a descriminação por quem comete o erro. Afinal, errar é humano. Não é impossível, mas pode ser prevenido.