A Calheta de São Martinho, localizada na costa sul da ilha de Santiago, no Município da Ribeira Grande de Santiago, assume um lugar de relevo na história da aviação mundial. Foi neste local que Cabo Verde se integrou, pela primeira vez, numa das mais importantes rotas aéreas do século XX, estabelecidas pela Compagnie Générale Aéropostale.
Em 1927, no contexto da expansão da ligação postal entre a Europa e a América do Sul, a Aéropostale identificou a baía da Calheta de São Martinho como local estratégico para a instalação de uma hidrobase, graças às suas águas abrigadas e às excelentes condições para a amaragem de hidroaviões.
No ano seguinte, a 6 de março de 1928, a infraestrutura recebeu o primeiro hidroavião proveniente de Saint-Louis, no Senegal, transportando correio na rota transatlântica.
Este acontecimento marcou a integração de Cabo Verde na rede internacional de transporte aéreo e postal. A hidrobase passou a integrar uma rota histórica que ligava a Europa à América do Sul, com escalas em vários pontos do Atlântico, incluindo Cabo Verde, desempenhando um papel decisivo no apoio às primeiras operações aéreas intercontinentais.
Entre os protagonistas desta aventura destaca-se o tenente francês Paulin Louis Jérôme Paris, conhecido como Paulin Paris, que pilotou um dos primeiros hidroaviões a amarar na baía da Calheta de São Martinho.
Embora a evolução tecnológica tenha tornado desnecessárias algumas destas escalas poucos anos depois, a relevância histórica da Calheta de São Martinho continua a ser incontestável. O local representa um testemunho significativo das primeiras experiências de aviação transatlântica.
Atualmente, subsistem vestígios da antiga hidrobase, constituindo um património de elevado valor histórico, cultural e científico. Em 2003, os Correios de Cabo Verde emitiram uma série de quatro selos comemorativos do 75.º aniversário da sua inauguração.
A hidrobase funcionou até 1933, ano em que foi criada a Air France, resultante da fusão da Aéropostale com outras companhias.
Calheta de São Martinho permanece, assim, como um símbolo do encontro entre continentes e da participação de Cabo Verde numa das mais notáveis epopeias da aviação do século XX.
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